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Pipoqueiro popular na Tijuca organiza campanha para arrecadar donativos


Ailton Arruda, que também é porteiro, usou as redes sociais para conseguir doações para quem perdeu renda na pandemia

RIO — Hoje tem espetáculo? Tem, sim senhor! O show para o respeitável público é garantido toda vez que Ailton Arruda pega a sua carroça de pipoca e sai pelas ruas da Tijuca, seja fantasiado de palhaço, de super-herói ou de um ídolo da música. No seu picadeiro imaginário (e, por que não?, real!), o pipoqueiro, que também dá expediente como porteiro em um prédio do bairro, faz o milho estourar ao mesmo tempo em que usa e abusa de cores, luzes e sons para chamar a atenção de quem passa. Se a criançada sorri encantada, o olhar dos adultos vislumbra um cenário que tem sabor de infância e cheiro de amor.



E acertou quem enxerga nessa ação lúdica muito mais do que uma estratégia para alavancar as vendas. Cada saquinho de pipoca doce ou salgada guarda a paixão deste carioca de 52 anos pelo que faz. Não por acaso, enquanto estava impedido de ocupar seu espaço de ambulante na Praça Xavier de Brito, distribuiu a guloseima no edifício em que mora e trabalha só  para alegrar a vizinhança em dias tristes. Mas a sua vocação generosa foi além. A popularidade conquistada na região está a serviço de uma campanha para arrecadar cestas básicas, que vêm sendo doadas em comunidades da Zona Norte.


— Eu vi pessoas realmente sem nada para comer na comunidade do Cruz, na Tijuca, e no Complexo do Lins, no Lins de Vasconcelos. Esse drama me comoveu profundamente. Então, através do meu perfil Pipoca e Arte, no Facebook, pedi doações de alimentos, e as pessoas começaram a contribuir. Tenho muitos amigos, a resposta foi imediata. Graças a Deus — agradece o Palhaço Pipoca.

Amor é uma palavra que Arruda repete constantemente. Sem dúvida, foi esse sentimento que despertou no pipoqueiro-porteiro o desejo de ajudar as pessoas que ficaram em situação de vulnerabilidade na pandemia. Vale dizer que, apesar da liberação para sua fiel companheira, a carrocinha de pipoca, voltar a circular pelas ruas da Tijuca ou para estacionar na Praça Xavier de Brito, essa rotina ainda não voltou ao normal para ele. Antes do coronavírus, o Palhaço Pipoca dava o ar da sua graça de quinta a domingo, mas por enquanto só tem saído de casa uma vez por semana, e de máscara!



— Eu nem tenho trabalhado na praça porque sempre levava brinquedos, e as crianças ficavam juntas, se divertindo. Para evitar aglomeração, eu me afastei provisoriamente de lá. Mas como fazer pipoca é minha vida, ando com a carroça pelas ruas da Tijuca. O mesmo amor que sinto pela pipoca, eu tenho por ajudar o próximo. Estou com a alma lavada por dar uma pequena contribuição para que não faltem o arroz e o feijão na mesa de algumas famílias — diz.


As vendas de pipoca não estão a todo vapor como eram antes da pandemia. Afinal, além da redução das saídas para trabalhar na carroça, as crianças não voltaram a estudar e ainda devem permanecer em casa por algum tempo. Mas isso não chega a ser um problema para Arruda. Casado, pai de quatro filhas, o pipoqueiro faz malabarismos para o seu dinheiro render.



— Sempre peço a Deus para que eu consiga vender minhas pipocas, mas, se não vender, que eu possa fazer uma criança sorrir. Só Ele sabe a dificuldade para arcar com duas filhas fazendo faculdade, mas eu não reclamo, embora o dinheiro da pipoca faça falta — admite.



A guloseima entrou na vida de Arruda de repente, há 26 anos, sem grandes pretensões. Mas logo ganhou espaço de destaque: — Eu largava cedo de um emprego que tinha e ficava com o resto do dia ocioso. Aí, sonhei que estava trabalhando numa carroça de pipoca. Na primeira vez em que saí para vender pipoca, eu me vesti de Banana de Pijama. As crianças ficaram emocionadas, e aquilo me comoveu de uma tal maneira que eu tive a certeza de que nunca mais ia largar esse trabalho. Não deu outra. A partir daí, comecei a fazer mais personagens, como o Palhaço Pipoca, alguns cantores famosos (entre eles, Michael Jackson, Freddie Mercury e Elvis Presley) e vários super-heróis.



A história de amor de Arruda com Dalvina, com quem vai comemorar bodas de prata pelos quase 25 anos de casamento, também tem relação íntima com a pipoca.


— Conquistei a minha mulher vestido de personagens. Ela não comprava pipoca comigo, mas sempre passava pela carroça. Gostei dela, sabia que era solteira, então investi. Comecei mandando flores, mas não deu certo. Aí, vestido de palhaço ou de outro personagem, brincava com ela, dava pipoca... Aos poucos, o coração da Dalvina foi amolecendo. Até hoje sou completamente apaixonado pela minha mulher, que me apoia em tudo — derrete-se o pipoqueiro famoso. O Palhaço Pipoca tem pelo menos três sonhos: ser feliz para sempre ao lado da sua Dalvina, ver a Praça Xavier de Brito revitalizada e ter uma carroça motorizada para subir a comunidade do Cruz só para distribuir gratuitamente saquinhos da guloseima para a garoada.


— Sou realizado com a família que construí, com os meus trabalhos; não preciso de muito para viver. Só agradeço. Mas quero muito ver a praça com brinquedos novos, limpa e segura, para que as crianças possam brincar à vontade, sem perigo de violência ou de se machucarem por conta da falta de manutenção. No mais, tenho fé de que ainda vou ter uma carroça motorizada para subir a comunidade e levar pipoca e alegria para as crianças. Eu já faço isso, mesmo sendo difícil subir com a carroça sem motor. É que não há nada melhor do que ver o sorriso de uma criança — diz.






Fonte: Jornal OGlobo

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