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ARTIGO | WITZEL DESMORALIZOU A INGENUIDADE DO GRAJAÚ

Bairro conservador da Zona Norte carioca, que teve orgulho de ver um vizinho governador, descobre que o pecado mora ao lado

Era uma sexta de agosto de 2018, a pouco mais de um mês do primeiro turno das eleições. Wilson Witzel, claramente sem traquejo, deixava-se conduzir por cabos eleitorais profissionais para cumprimentar frequentadores da feira livre da Avenida Júlio Furtado, no Grajaú. Diante da informação de que ele morava no bairro da Zona Norte carioca, compreendia-se o clima paroquial do corpo a corpo. Devia se tratar de um postulante a deputado com poucas chances de êxito.



A primeira surpresa vinha ao saber que ele era candidato a governador do Estado. A segunda, que alguns feirantes já o conheciam. Mais: diziam que votariam nele. As pesquisas apontavam Witzel, do PSC, com apenas 1% das intenções de voto, mas já estava em curso a operação que levaria à vitória aquele desconhecido senhor calvo. Aliado à família Bolsonaro e a aliados desta, como setores evangélicos e policiais/milicianos, o ex-juiz cresceria nos subterrâneos das correntes de WhatsApp e das pressões diretas sobre eleitores até saltar aos olhos da imprensa. Chegou à frente no primeiro turno e, na disputa final com Eduardo Paes (DEM), elegeu-se com 59,87% dos votos.



O Grajaú é um bairro célebre por seu conservadorismo. “Mais fora de esquadro do que esquerdista no Grajaú”, escreveu Aldir Blanc na letra de “Querido diário”, parceria com João Bosco. É uma área de militares, descendentes de militares e pessoas que pensam como militares de direita ou extrema-direita.


A dobradinha Bolsonaro-Witzel fez vibrar boa parte dos moradores. São os antipetistas, anti-direitos humanos e que se orgulham de ser moralistas, condenando e julgando qualquer tipo de roubo – o do pivete que merece ser executado e o do político que merece ser preso.

Witzel desmoralizou a ingenuidade grajauense. Estão guardadas as camisas amarelas usadas por senhores orgulhosos de serem do mesmo bairro do governador. Como o grajauense é, antes de tudo, um incauto, muitos ainda parecem acreditar na probidade da família Bolsonaro, apesar dos indícios robustos de lavagem de dinheiro e de desvio de recursos públicos.



Houve feira na sexta 28. Fazia-se piadas com os apuros em que se meteu o ex-amigo – porque sem humor não dá para aguentar. E havia resignação. Afinal, cinco ex-governadores do Rio já foram presos neste século. E, agora, um é afastado. Daqui a pouco, nem notícia mais vai ser.


Quando venceu a eleição, Witzel voltou à feira para agradecer o apoio e os votos. Agora, se pensar em comprar bertalhas e nabos, melhor pedir no supermercado – porque bom humor tem limite.



Afastado pela Justiça por 180 dias, Witzel sabe que não retornará mais ao cargo. Sua preocupação é não ser preso e, assim, poder usufruir da reformada casa de dois pavimentos na rua Professor Valadares. De acordo com um procurador da República, é possível que servidores públicos tenham sido utilizados para tocar a reforma. Caso se confirme a suspeita, o crime de peculato se somará aos outros pelos quais o ex-juiz é denunciado pela Procuradoria Geral da República: corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro.



O imóvel é o endereço do escritório de advocacia da “primeira-dama afastada” Helena Witzel. Segundo a PGR, foi usado como porta de entrada de propinas para o governador. O conservadorismo grajauense descobriu que o pecado mora ao lado. Antes tarde do que nunca.




Fonte: Epoca.Globo.com

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