Há anos participo como voluntária de eventos e palestras em instituições públicas, principalmente escolas e bibliotecas, sempre tratando de temas ligados à Cidade do Rio de Janeiro e conversando sobre meus livros. Ano passado, dei uma palestra exclusivamente para os professores do CIEP Dr. Antoine Magarinos Torres Filho, na Rua São Miguel, Comunidade do Borel, em frente à quadra da Escola de Samba Unidos da Tijuca. Essa unidade de ensino trabalha até o 5º ano. Foi a primeira vez que entrei num CIEP. Embora não tivesse conhecido os alunos, saí de lá encantada com o estabelecimento e com seu corpo docente. Fiz questão de saber tudo sobre a escola, crianças e comunidade local. Voltei outras vezes, travei contato com meninos e meninas e, quando me dei conta, fazia parte da Oficina de História e Geografia do CIEP (hoje Oficina Letramento) e na condição de “amiga da escola”.
Uma tarde por semana sou recebida com respeito, carinho e entusiasmo pelas professoras e alunos. Sinto-me privilegiada por ser parceira desse grupo. Presencio um trabalho excepcional da direção e de sua equipe, que conta com professores, funcionários, monitores, garis (sempre os mesmos) da Comlurb e estagiários. Os alunos recebem uniforme completo (casaco, calça, camisas, shorts, meias e tênis), material escolar e alimentação integral (café da manhã, almoço, lanche e jantar). Sou prontamente atendida em tudo que necessito para minhas aulas: livros, mapas, globo terrestre, data show e sala de informática.
Todas as comemorações que normalmente integram o calendário de qualquer escola (dia do índio, festa junina, dia das crianças, dentre outras) são celebradas com esmero. Nas salas de aula e corredores, estão em permanente exibição os trabalhos e atividades executadas pelos alunos, como também reportagens que atualizam o conhecimento de todos sobre o Brasil e o mundo. Nesses momentos, tenho a oportunidade de tomar contato com o trabalho de outras turmas; alguns me deixam perplexa por seu grau de dificuldade e pelo capricho na elaboração.
Nos finais de semana, o espaço é ocupado pelos moradores da Comunidade do Borel, como parte do projeto “Escola Aberta”, que inclui cursos, oficinas de artesanato, esporte e música. O projeto visa integrar a comunidade à escola e abrir novas perspectivas no mercado de trabalho a quem dele participa. Tornei-me fã dessas professoras e agradeço a elas a oportunidade de colaborar, mesmo que tão pouco, com esse trabalho maravilhoso, que consiste em educar essas crianças e jovens para um futuro melhor. No entanto, acreditem, tenho mais coisas para contar sobre essa instituição maravilhosa.
O CIEP faz parte do programa “Escola do Amanhã”, realizado apenas em locais com altos índices de violência e concebido para manter as crianças o maior tempo possível longe de situações agressivas. O programa abrange educação em tempo integral, oficinas variadas, acompanhamento pedagógico, meio ambiente (horta escolar) esporte, artes, comunicação (rádio escolar) e informática.
A escola sempre participa do FECEM (Festival de Música das escolas Municipais da Cidade do Rio de Janeiro), cujo objetivo é incentivar a produção musical dos alunos, proporcionando uma vivência artística. Essas experiências musicais são apresentadas pelos estudantes em festivais regionais, nos quais as dez melhores canções são selecionadas pelas Coordenadorias Regionais de Educação (CRES) e participam da gravação ao vivo de um CD. As poesias e canções da moçada do CIEP Dr. Antoine Magarinos Torres Filho foram escolhidas para registro no CD “Receita de Vida”. Nossas crianças também participaram do coro no CD “Elementar – Terra, Fogo, Água e Ar”, do músico, arranjador, compositor e educador Sidney Mattos, do qual também participaram Bia Bedran e Ivan Lins.
Como parte da festa de despedida do 5º ano, no ano passado, ocorrida no Centro Municipal de Referência da Música Carioca, assisti meus alunos cantando as músicas do “Receita de Vida” e tocando vários instrumentos. Foram aplaudidos de pé (contive minhas lágrimas, emocionada que estava pela beleza das canções e pela postura responsável daqueles jovens). Agora na 6º ano, esse grupo foi distribuído por diversas escolas no bairro. Entretanto, por morar nas proximidades do Borel, continuo a encontrá-los com freqüência. Nesses preciosos momentos, sou abraçada e beijada, não perdendo a oportunidade de perguntar pelos estudos e de dizer que podem contar sempre comigo.
Essa mesma turma do CIEP Dr. Antoine Magarinos Torres Filho tirou nota 5 na prova do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), que mede a qualidade da educação no Brasil, superando a meta estabelecida para 2017. Só para lembrar: das 1.000 escolas municipais, apenas 290 atingiram essa meta. O CIEP foi homenageado pela Secretária de Educação, mas creio que o reconhecimento deveria ser de toda a sociedade carioca, com direito a divulgação em programa de TV em rede nacional: que todos saibam que a educação superou a violência no Borel.
Esse ano apareceu por lá como novidade o projeto “Vídeo Ambiental”, que teve como tema o Rio Maracanã. Sua equipe possui profissionais de múltiplos saberes, pensando o futuro do meio ambiente com o uso de ferramentas audiovisuais. Colaborei com o trabalho contando a história da Tijuca e do Rio Maracanã. Percorri com as crianças as partes limpas e poluídas do curso d’água mais importante do bairro, visitei o local de coleta seletiva e reciclagem do lixo retirado do rio, como também conheci alguns representantes do “Programa Guardiões dos Rios”. Tudo foi registrado pelos alunos através de máquinas fotográficas, filmadoras e microfones. O resultado de cada edição do projeto é publicado no site Vídeo Ambiental, ficando uma cópia na escola. Um trabalho educacional que conscientizou com simplicidade a importância de mudanças radicais de comportamento dos moradores para o benefício das futuras gerações.
Está surpreso, leitor? Pois ainda tem mais. Esse mês, o CIEP vai fazer parte do Projeto “Bairro Educador”, que propõe um novo modelo de educação, cujo objetivo é transformar a comunidade em extensão do espaço escolar. Assim, o processo ensino-aprendizagem se dará valorizando os talentos e a cultura locais, integrando a escola com todo o seu entorno. Pesquisando e analisando as oportunidades de melhoria, será possível discutir e buscar soluções para aprimorar o bairro, realçando o potencial da sinergia entre escola e moradores na construção da cidadania. Contudo, para a realização desse projeto, é preciso que a escola encontre parceiros públicos e privados.
Resta citar a iniciativa que mais me encanta: o cineclube a ser instalado no CIEP para uso exclusivo da comunidade escolar, com filmes provenientes do acervo do MultiRio. O acesso à produção cinematográfica vai possibilitar a realização de debates e a democratização do acesso à sétima arte, hoje disponível apenas nos Shoppings para aqueles com maior poder aquisitivo.
Finalmente, é bom lembrar que esse estabelecimento educacional não é um paraíso. Estou falando de um CIEP que fica na entrada da Comunidade do Borel e que conseguiu, provavelmente de forma lenta e com muita perseverança de professores e funcionários, conquistar o lugar de destaque que hoje ocupa. Com certeza, existem outras escolas públicas no Rio de Janeiro com projetos e iniciativas de sucesso. Portanto, se você ainda não conhece esse Brasil que dá certo, procure algumas das instituições do seu bairro. Quem sabe, elas lhe proporcionarão a oportunidade de participar de algo que trará muita alegria, satisfação pessoal e orgulho de ser carioca.
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