Publicado em 07/07/2009
Estava parada com meu carro no sinal do cruzamento da Avenida Maracanã com a Rua José Higino. De repente, o motorista de um outro veículo abriu a janela e jogou uma caixa no Rio Maracanã. A indignação me fez abrir a janela e chamá-lo de Sujismundo. Lembram dele? Foi um personagem criado por Ruy Perotti, utilizado na campanha educativa do Governo Federal intitulada “Povo desenvolvido é povo limpo”, da década de 1970. A campanha foi um sucesso e creio que precisamos imediatamente de algo semelhante na mídia, de modo a conscientizar a população sobre sua responsabilidade na preservação de nossos recursos naturais.
Se eu fosse poetisa, escreveria sobre a beleza das nascentes dos rios tijucanos, mas fico apenas com sua história e importância para o crescimento do bairro e da cidade. Em 1565, o Governador do Rio de Janeiro, Mem de Sá, distribuiu sesmarias; nosso primeiro engenho de cana de açúcar foi construído numa delas. Não foi por acaso que os Jesuítas o ergueram nas proximidades de uma pequena ermida, dedicada a São Francisco Xavier, entre 1572 e 1583. O local é drenado pelos rios Trapicheiros, Maracanã e Joana, o que facilitou tremendamente o trabalho dos religiosos pela disponibilidade abundante de água.
Com o passar dos séculos, os rios urbanos perderam sua importância e muitos deles estão canalizados. No entanto, ainda hoje é possível descer do Alto da Boa Vista para a Tijuca seguindo as águas cristalinas que formam o Rio Maracanã, que é o mais importante do bairro. Após nascer na Cascatinha da Tijuca, ele recebe a contribuição de alguns córregos a jusante, que aumentam a torrente do canal principal. Várias caixas d´água situadas ao longo desse rio ainda podem ser encontradas na Avenida Edson Passos e na Estrada Velha da Tijuca. Elas merecem uma visita, pois são de uma beleza singular.
A partir da Usina, as mudanças são gritantes e o desrespeito é total. Esgoto, lixo e mato tomam conta do leito fluvial. Apesar de o vocábulo Maracanã se referir a uma espécie de papagaio da família dos psitacídeos, as garças são atualmente as moradoras predominantes das árvores nas margens. Por sua vez, os peixes devem ser menores e mais escassos que os de tempos atrás, mas é ainda possível vê-los depois das grandes cheias, quando o nível das águas desce rapidamente, a se debater no asfalto da Avenida Maracanã.
O Rio Maracanã é acompanhado por uma avenida em quase todo seu percurso urbano, até se juntar com os rios Trapicheiros e Joana, para desaguar na Baía da Guanabara. Em épocas passadas, deve ter sido utilizado como via de transporte, a julgar pela existência de um pequeno cais na esquina da Rua Garibaldi com a Avenida Maracanã, nos fundos do antigo casarão que hoje é sede do Centro de Referência da Música Popular Carioca. Imagine só passear por aquelas águas…