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Os Botequins e a Tijuca – Parte I

A Tijuca, que defendo com unhas e dentes ser o mais aprazível dos bairros da cidade do Rio de Janeiro (o que conseqüentemente me faz afirmar, sem medo do erro, ser o melhor bairro do mundo), é farta, muito farta, em bares, botequins, biroscas, quitandas e tendinhas que fazem a alegria do sujeito que se dispõe a ver o mundo debruçado num balcão.

É na Tijuca que fica, por exemplo, o clássico Bar do Pavão, comandado por meus queridos Pavão e dona Jô, na rua Doutor Otávio Kelly, colado à Praça Xavier de Brito, mais conhecida como praça dos cavalinhos. Ali o troço é sério, é muito sério – do chope à comida, com absolutos destaques para a feijoada de sábado e para o cozido de domingo. Como se não bastasse ficar a poucos metros da casa de minha avó, que do alto de seus 84 anos não dispensa o chope eventual, o excepcional bar é vizinho do seu Antônio e da dona Olívia, ela uma personagem que – tenho defendido isso com veemência – merece, por tudo o que faz pela cidade, placa de rua, estátua de bronze e o escambau! Explico.

O drama de qualquer dono de bar (a bem da verdade de qualquer comerciante, mas a perseguição contra os bares e botequins é maior!) é o vizinho implicante, o vizinho chato, o cri-cri, como se diz por aí. O vizinho que adora atravessar o túnel pra beber na calçada da rua Dias Ferreira, no Leblon, mas que detesta uma única mesa que seja na calçada da rua tijucana em que mora. E se tem um troço que seguramente faz a alegria do Pavão e da dona Jô é o fato de serem vizinhos da dona Olívia. Porque a dona Olívia, tijucana de quatro costados, é uma espécie de anfitriã do Pavão. Ajuda a organizar a fila de espera por uma mesa, recebe todo mundo com uma doçura que na Tijuca é mais doce, permite (com uma leniência que tem muito mais a ver com carinho do que com permissividade) mesas diante de sua própria casa e não cabe em si de tanta simpatia.

Mas isso não é privilégio só do Pavão, não! O Bar do Marreco, doce espelunca na rua Haddock Lobo, tem um freqüentador, que é aposentado, que faz, todas as manhãs, por absoluta fidelidade ao buteco de todos os dias, as compras pra cozinha comandada pelo Geraldo. O seu Cláudio, morador da rua Caruso, é outro que zela, com dignidade, pelo bom andamento dos trabalhos dos botequins da área.

E a rua do Matoso – com o passar do tempo vou falando sobre os demais botequins tijucanos – que tem nascedouro na Praça da Bandeira e deságua na Barão de Itapagipe, é um verdadeiro manancial de botequins fundamentais. O Matosinho, no começo da rua, o Rex, um dos maiores e melhores galetos do bairro, o Almara, tesouro encravado na Barão de Iguatemi, quase na esquina da Matoso, o Gonzaguinha, o Trás-os-Montes, todos eles particularíssimos dentro dessa relação amistosa entre os donos, os gerentes, os freqüentadores e a vizinhança.

Tem gente, como meu compadre Leo Boechat, que atravessa o túnel, de lá pra cá, só pra beber na rua do Matoso. E gente, como Jean Boechat, seu primo, que sempre que pousa no Santos Dumont, vindo de São Paulo, pega um táxi direto pra Tijuca, em busca das maravilhas da Matoso.

Aqueles que gritam e esperneiam contra essa tradição do bairro em nome de higiene absoluta, ordem, respeito às leis que eles próprios criam, silêncio sepulcral – essas coisas que atentam contra a vida real fora das insuportáveis praças de alimentação de um shopping center – hão de me perdoar: mas eu, como cantaram Moacyr Luz e Aldir Blanc, não resisto aos botequins mais vagabundos.

Como o vagabundo botequim onde beberam, graças à criação poética de Paulo Emílio da Costa Leite, o Borel, a Formiga, o Turano e a Casa Branca, morros queridos do meu mais querido bairro da zona norte da cidade.

Nas próximas semanas, dando continuidade à série OS BOTEQUINS E A TIJUCA, falo mais sobre mais tesouros escondidos por aqui.

Um brinde à dona Olívia, a quem homenageio, através deste primeiro texto da série, com um tremendo carinho, ela que conheceu papai menino na rua Campos da Paz, naquela meiúca que é Rio Comprido mas que também é Tijuca.    

Um abraço a todos, do tamanho da Tijuca!

 

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